Crise da água: A culpa é do governo. Um pouco curioso!!

Em setembro do ano passado, o cinegrafista Arnaldo Bento viajava de carro na Rodovia dos Tamoios, que liga São José dos Campos ao Litoral Norte de São Paulo, e assustou-se com a paisagem. O Rio Paraíba do Sul e a Represa Paraibuna secavam. Decidiu agir. Foi à região das represas do Sistema Cantareira, que abastece a Grande São Paulo, e fez um vídeo. A ideia era mostrar que a culpa pela crise da água não era apenas do clima, mas também das autoridades e da população. O comportamento de Bento não é isolado. Ele faz parte de uma tendência identificada por um levantamento de opinião do Instituto ReclameAqui, feito a pedido de ÉPOCA. Mesmo no segundo ano de seca severa no Sudeste, a população não acredita que a culpa pela falta de água seja da natureza.
Antes do último verão, quase dois terços (63%) da população acreditavam que a culpa da falta de água era apenas da ausência de chuvas. Essa percepção mudou. Agora, na pesquisa de fevereiro, apenas 43% pensam o mesmo. O levantamento foi feito pela internet. Mais de 20 mil pessoas responderam às questões, a maioria moradores dos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Ele não tem rigor estatístico para representar fielmente a opinião dessas populações. Mas seus resultados apontam as mesmas tendências detectadas por outros institutos, como o DataFolha.
Ao mesmo tempo que cai a parcela dos que culpam a natureza, cresce a parcela dos que culpam o governo. De novembro para fevereiro, subiu de 79% para 87% a fatia dos que atribuem a seca à má gestão da água (leia abaixo). Esse grupo acredita que houve administração pública ruim da água por parte de entidades como governos e empresas de abastecimento. Ana Néca, coordenadora do Instituto Akatu, que desenvolve campanhas contra o desperdício de água, diz ser visível a mudança de opinião. “A população começa a tomar consciência de que não é uma crise pontual, de que teremos problemas de abastecimento por muito tempo, pelo menos até 2017”, afirma. Num sinal de maturidade, três em cada quatro respondentes atribuem a falta de água também ao desperdício, culpa compartilhada pelos cidadãos.

Consciência pela metade (Foto: Fonte: Instituto ReclameAqui)

(Fonte: Instituto ReclameAqui)

Para muitos, as torneiras já estão secas. Um em cada oito participantes afirma que o fornecimento de água falha diariamente e um em cada dez fica sem água uma vez por semana. Um em cada quatro passou a comprar água mineral, com medo da qualidade da água que chega às torneiras.
Os números revelam um descompasso entre o conhecimento científico e a opinião popular. A crise chegou à situação atual, extrema, não apenas pela má gestão governamental. O desmatamento na Mata Atlântica e no Cerrado e a perda da vegetação que protege nascentes e mananciais também são fatores importantes. Uma pesquisa feita pela Universidade de São Carlos mostra que áreas com boa cobertura florestal retêm quase toda a água da chuva, enquanto as áreas desmatadas perdem até 20% dela. Esse conhecimento não foi absorvido pela população. Apenas 42% dos entrevistados relacionam o desmatamento da Mata Atlântica à crise de água. O desmatamento na Amazônia, de relevância incerta para a seca no Sudeste, recebe lembrança semelhante.
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