Sem limites: como profissionais superam deficiências e se destacam no mercado

Nascida no interior de Pernambuco, Joana Belarmino é filha de um casal de camponeses que teve ao todo 13 filhos, sete dos quais nascidos cegos, ela inclusa. Mas nada disso impediu que ela fosse criada e educada como qualquer outra criança. E, assim, Joana estudou, aprendeu por meio do braille e fez vestibular para Jornalismo, contrariando opiniões de diversas pessoas na época. “Educadores, pedagogos e as pessoas que lidavam com a questão da profissionalização diziam que seria muito difícil eu conseguir ser jornalista”, explica.
No entanto, ela formou-se pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e atuou em uma empresa do ramo por nove anos. “Foi um período muito difícil no jornal O Norte, porque na época, na década de 80, nem as pessoas que enxergam usavam o computador.
Era usada a máquina de escrever e eu fazia minhas coberturas com braille e gravador. Apesar de ter sido um período desafiante, foi muito produtivo. Fiz grandes reportagens e aprendi que a faculdade é o lugar em que você reflete sobre a prática, mas a redação lhe dá exatamente o que a faculdade não pode, que é a rotina, o fazer cotidiano”.
Após esse período, a profissional voltou a estudar, fez Mestrado, depois participou de um concurso e segue a carreira docente desde 1994 na própria UFPB, tendo concluído, em 2004, Doutorado pela PUC, em São Paulo. Joana faz parte de um grupo seleto, mas que vem aumentando nos âmbitos social e profissional: deficientes com carreiras de sucesso.
Alvo de segregação e marginalidade social históricas, esse segmento vem, literalmente, transpondo barreiras ao longo do tempo e hoje, ser deficiente deixou de ser sinônimo de incapacidade. No entanto, essa mudança de paradigma é recente. Os avanços relacionados a esses profissionais no mercado de trabalho só começaram a ocorrer a partir da década de 90, como o estabelecimento de cotas nas empresas. No Brasil, a lei previdenciária nº 8213/91 passou a obrigar que companhias com 100 ou mais funcionários tenham de 2% a 5% de seu quadro funcional formado por deficientes.
Essa legislação, segundo o sociólogo Leo Voigt, especialista em responsabilidade social, gerou uma revolução que abriu um mundo de oportunidades para os deficientes e gerou novos desafios para eles e para as companhias. “Tanto os ambientes de trabalho tiveram que se adaptar ao perfil dessa mão de obra, quanto esses trabalhadores tiveram que tentar adentrar em espaços antes inacessíveis”, destaca Voigt.

Desafios

Apesar desse esforço de ambos os lados, ainda há problemas com o cumprimento desta obrigatoriedade pelas companhias, que muitas vezes contratam pressionadas por fiscalizações, não confiam na capacidade desses profissionais ou não oferecem estruturas físicas que promovam a acessibilidade deles. Segundo Isabela D’Angelo, psicóloga e analista de RH da Proton Consultoria, essas organizações precisam se conscientizar de que a diversidade é benéfica para a sociedade e para o próprio profissional com deficiência. “O principal é quebrar barreiras físicas e atitudinais”, afirma.
No entanto, os desafios não se resumem à receptividade das empresas. Muitas organizações ainda têm dificuldades em encontrar profissionais qualificados para preencher totalmente as cotas, o que prova que ainda existe muito o que fazer. É preciso “que (as pessoas com deficiência) estudem, desenvolvam-se, briguem pelo direito à educação, transporte, exigindo do governo capacitação e facilitação de sua inserção no mercado”, declara Maria Lúcia Benhame, especialista em Direito Trabalhista.
Um desses casos em que houve busca pelo aperfeiçoamento é o de André Luís Macedo. Em 1995, um mergulho na praia em água rasa mudou completamente a vida dele, na época com 17 anos. O rapaz, que era estudante de nível médio, fraturou a cervical e ficou tetraplégico. Passou dois anos na reabilitação e após esse período, fez supletivo e prestou vestibular na área de Computação para a UERJ, onde estudou por quatro anos. “É uma outra realidade. Às vezes as provas eram em papel e eu fazia no computador. Mas consegui ir me adaptando e participando”, conta.
Depois de formado, foi em busca de emprego e encontrou barreiras de preconceito em empresas particulares, o que o fez optar pelo funcionalismo público, conseguindo ser aprovado em concurso da Petrobras para a área de Análise de Sistemas. “No mercado particular, a gente bate com a cara na porta mesmo. A única opção seriam os concursos públicos, já que temos a legislação que fala da cota e, para mim, foi a melhor saída”, explica.
E nem as adversidades impediram que André deixasse de praticar esportes. Há um ano ele e outros cadeirantes praticam o power soccer (futebol em cadeira de rodas motorizadas). “Eu soube do esporte por meio de atendimentos e, então, comecei a ir em busca de pessoas e começamos a colocar em prática”.
Objetivo: ser administradora

A prática de outras atividades, como esportes, dança e terapias, estimulam e possibilitam o desenvolvimento de habilidades físicas e motoras. E esse tipo de incentivo foi um aliado no caso da estudante de Administração pela Universidade Católica de Pelotas Thaís Pinheiro Cândia. Ao nascer, ela teve uma doença chamada kernicterus, um tipo de icterícia, que evoluiu após 24h a um estado de paralisia cerebral. Em decorrência, ela teve sequelas na parte da coordenação motora e audição. Diante disso, seus pais procuraram opiniões de vários neurologistas, que afirmaram que o desenvolvimento de Thaís dependeria do estímulo dado a ela.
Assim, a partir do incentivo de seus familiares, começaram os progressos. Aos 4 anos ela começou a andar e falar auxiliada por tratamentos de fisioterapia, hidroterapia e fonoaudiologia, além de ter aprendido leitura labial sozinha. Para se alfabetizar, sua mãe teve um papel fundamental. “Na primeira série a minha mãe colocava cartazes por todos os lados para que eu pudesse aprender a ler e a escrever”, conta.
Após passar por várias dificuldades no ensino fundamental e médio, com relação à falta de aparelhos auditivos e ao próprio preconceito de professores e colegas, ela fez vestibular para Administração na Universidade Católica de Pelotas e foi aprovada. Hoje, com 18 anos, está terminando o primeiro semestre. “Estou amando o curso e pretendo fazer um estágio na área neste semestre”, afirma.

É preciso uma rede de colaboração

Em sua vida como jornalista, Joana passou por situações em que as pessoas receavam que ela não conseguiria realizar uma matéria e até mesmo fontes que acreditavam que ela se ressentiria se falassem com outros jornalistas. “Esse tipo de preconceito está dentro da cultura, da sociedade, fica mais diluído”, afirma. Ela acredita que o maior preconceito é o institucional, pela falta de condições de trabalho para o deficiente exercer sua cidadania. No caso dela, esses obstáculos puderam ser superados com o apoio de uma rede de colaboração. “Os obstáculos são impostos pela falta de se pensar um modelo de cidadania que incorpore todas as pessoas, daí a importância dessa rede colaborativa”.
(Joana Belarmino – professora doutora em Comunicação e jornalista)

Constrangimentos infundados

Para André, o preconceito se deu mais na busca por oportunidades nas empresas privadas, onde o preconceito normalmente não é exacerbado, mas quando chegava o momento de se receber um feedback, vinha uma negativa. No entanto, o receio das empresas não condiz com sua atuação como profissional. “Na Petrobras realizo meu trabalho há 5 anos, já fui reconhecido com premiações internas. Se eu fosse incapaz, teria só entrado, ficado encostado, mas não é o que mostra a realidade. Tenho produzido muito aqui”, explica.
(André Luís Macedo – Analista se Sistemas da Petrobras)

Abrindo os olhos dos outros

“Eu sempre sofria preconceito, tanto por ser deficiente, quanto por me sair bem nas aulas”, afirma Thaís, que quando começou a cursar o primeiro ano do ensino médio, sofreu com atitudes de pessoas da escola. “Parecia que todos os professores não me conheciam e não me aceitavam apesar de eu estar no mesmo colégio há tanto tempo. Não fazia sentindo essa discriminação. Nem meus colegas ajudavam, por eu ser diferente”, relata a estudante, que acabou repetindo a série no mesmo colégio, o que mudou a atitude dos professores. “Isso começou a fazer com que eles se dessem conta de que eu tinha problemas e tenho até hoje”, desabafa.
(Thaís Pinheiro Cândia – estudante de Administração)
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