Um cruzamento inédito de dados oficiais aponta que ao menos 1,4 milhão de famílias brasileiras estão omitindo a presença de cônjuges no Cadastro Único (CadÚnico) para receber indevidamente o Bolsa Família. A prática, considerada fraude ideológica, gera um impacto anual estimado de R$ 11,1 bilhões aos cofres públicos, valor que poderia ser direcionado a famílias realmente em situação de vulnerabilidade.
A manobra ocorre quando pais ou mães que vivem juntos se registram como famílias monoparentais — compostas apenas por um dos responsáveis e os filhos — para atender aos critérios do programa, que exige renda familiar de até R$ 218 por pessoa. Em muitos casos, o outro cônjuge tem vínculo empregatício ou alguma fonte de renda que, se declarada, inviabilizaria o acesso ao benefício.
A estimativa foi construída a partir da comparação entre o número de domicílios monoparentais registrados no Censo e as famílias com esse perfil cadastradas no Bolsa Família. Em milhares de cidades, há disparidades gritantes entre as duas bases. Em Guaribas (PI), por exemplo, são apenas 151 domicílios monoparentais segundo o Censo, mas 617 famílias se declararam nessa condição no programa — uma diferença de 466 possíveis fraudes.
Esse tipo de distorção foi identificado em 2.134 dos 5.571 municípios brasileiros, o equivalente a 38% do total. Em números absolutos, a capital Manaus (AM) lidera com mais de 15 mil famílias possivelmente omitindo cônjuges. Já Pracuúba (AP) tem o maior índice proporcional: 157 domicílios monoparentais reais e 840 registros no Bolsa Família.
A fraude pode acontecer de diferentes formas: além da omissão do cônjuge, há casos em que pai e mãe se registram como famílias separadas, cada um declarando viver sozinho com a criança. Em alguns cadastros, inclusive, o endereço de um dos responsáveis é forjado para simular outra residência.
Entre março de 2024 e março de 2025, apenas 1,1 milhão de famílias passaram por visitas domiciliares de inclusão ou atualização no CadÚnico — número considerado baixo diante da complexidade do programa. Atualmente, o Bolsa Família atende 20,5 milhões de famílias, das quais 11,3 milhões se declaram monoparentais. Esse grupo representa 74,9% dos domicílios com essa estrutura familiar no país, percentual bem superior à média nacional de participação no programa social.
Com base nos valores médios pagos mensalmente, o custo das 1,4 milhão de famílias suspeitas de fraude é de R$ 926 milhões por mês. Esses recursos poderiam ser usados para beneficiar famílias legítimas, ampliar o alcance de outros programas sociais ou até reduzir o déficit fiscal.
A fiscalização hoje depende principalmente dos municípios, que são os responsáveis por cadastrar e manter os dados atualizados. Cabe ao governo federal coordenar e normatizar a gestão do CadÚnico, mas o volume de fraudes e omissões indica falhas na supervisão e na atualização da base.


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