Em meio ao recorde de visitação aos Parques Nacionais brasileiros, que somaram 12,4 milhões de visitantes em 2024, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses desponta como um dos destinos turísticos mais procurados do país.
Recém-reconhecido como Patrimônio Natural Mundial pela Unesco, o parque registrou um crescimento de 191% no número de visitantes entre 2019 e 2024, movimento que levou gestores públicos e representantes locais a avaliarem a possibilidade de estabelecer um limite diário de visitantes.
Ainda não há definição sobre o controle de acesso. Estudos estão em andamento pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão do parque, em parceria com as prefeituras dos municípios que compõem a área dos Lençóis Maranhenses e representantes da comunidade local.
A proposta inicial é identificar a capacidade ideal de fluxo de visitantes, antes de decidir se haverá restrição diária de entradas. A possibilidade de controle já consta no edital de credenciamento de operadores de turismo autorizados a atuar dentro do parque.
“O desenvolvimento econômico da região é evidente, o turismo tem sido um motor real de transformação. Mas os números chamam atenção e motivam a análise da capacidade de visitas ao parque. O principal risco é a contaminação do lençol freático”, afirma Matteo Soussinr, proprietário da pousada Ciamat Camp, em Santo Amaro.
Soussinr chegou ao município em 2013, quando abriu uma pousada voltada ao turismo sustentável, com valorização da mão de obra local. Desde então, acompanhou o crescimento acelerado da cidade, que atualmente tem cerca de 20 mil habitantes, mas chega a receber o triplo desse número durante a alta temporada, entre junho e agosto.
Segundo dados da prefeitura, Santo Amaro recebeu 61 mil visitantes em 2021, número que saltou para 297 mil em 2024, evidenciando a pressão sobre a infraestrutura local.
A visitação ao Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses passou de 141 mil visitantes em 2019 para 440 mil em 2024, um aumento de 191% em relação ao período pré-pandemia. Os números de 2025 ainda não foram consolidados, mas, entre janeiro e julho, o parque recebeu 381.131 visitantes, frente a 277.091 no mesmo período de 2024, representando um crescimento de 37,55%.
“Houve uma mudança radical nos números, um crescimento exponencial” resume Soussinr, que cita Barreirinhas, maior cidade da região, com cerca de 90 mil habitantes, como exemplo dos riscos do crescimento desordenado. Barreirinhas mostrou que, sem planejamento, surgem problemas graves, como especulação imobiliária, lixo e infraestrutura insuficiente. Esses sinais já começam a aparecer em Santo Amaro.
Atrativos lotados e pressão ambiental
Com o aumento da demanda, multiplicam-se nas redes sociais vídeos de turistas que relatam surpresa ao encontrar atrativos superlotados dentro do parque. O circuito da Lagoa Bonita é um dos mais procurados, e os passeios de bate-volta saindo diariamente de São Luís contribuem para a concentração excessiva de visitantes em determinados pontos.
Apesar da pressão crescente, Soussinr avalia que, em comparação com outras regiões do Maranhão, a qualidade urbana nos Lençóis Maranhenses ainda é satisfatória, destacando a consciência da população local sobre a importância da preservação ambiental. Atualmente, visitantes que se hospedam em Santo Amaro pagam uma taxa de R$ 10 válida por três dias, além da cobrança de impostos sobre passeios turísticos.
Turismo de massa preocupa autoridades
O debate sobre os Lençóis Maranhenses ocorre em um contexto mais amplo. Enquanto o governo federal celebra o recorde de 9,2 milhões de turistas internacionais em 2025, cresce a preocupação com o turismo de massa predatório, que tem provocado superlotação e impactos negativos em áreas ambientalmente sensíveis.
Casos recentes, como agressões envolvendo barraqueiros em Porto de Galinhas (PE) e Balneário Camboriú (SC), expuseram problemas associados à falta de planejamento urbano, crescimento desordenado e deficiência de políticas públicas em destinos turísticos populares.
Após os episódios em Porto de Galinhas, a prefeitura de Ipojuca (PE) proibiu a exigência de consumação mínima nas praias. Medidas semelhantes foram adotadas em outros municípios: Niterói (RJ) fixou um teto de R$ 22,85 para aluguel de barracas, enquanto Florianópolis (SC), Arraial do Cabo (RJ) e Ubatuba (SP) reforçaram a fiscalização.
Além das regras comerciais, o controle de visitantes vem sendo adotado em áreas de preservação ambiental como Jericoacoara (CE), Ilha Grande (RJ) e Morro de São Paulo (BA), onde a cobrança de taxas de visitação, em alguns casos, resultou em questionamentos judiciais.


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